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ROTINA DE QUEM OPTA PELO MESTRADO - DOIS RELATOS INTERESSANTÍSSIMOS

Bom dia de quarta-feira de cinzas a todos. Dia de voltar aos estudos. 

Ontem escrevi sobre fazer ou não pós-graduação/mestrado após o término da faculdade, bem como se é possível conciliar com concursos. 

Para mostrar a vocês o lado da pesquisa, dois colegas escreveram sobre o tema: primeiro o colega Julio Barreto (mestrado na UENP-Jacarezinho, onde inclusive fiz minha graduação) e o colega Adalberto (conhecido da Nath inclusive, graduado e mestre pela UFPA e doutorando pela USP). 

Desde logo agradeço ao Julio e ao Adalberto pela inestimável contribuição em escrever sobre o tema e compartilharem essa experiência com todos nós. Vamos aos relatos dos colegas que muito ajudarão vocês a tomarem a decisão adequada para suas vidas: 

Primeiro o texto do Julio Barreto
A minha empreitada para o mestrado se deu no início do ano de 2012, estava iniciando, também, meus estudos para concurso. Por morar próximo à cidade de Jacarezinho (UENP), resolvi me empenhar para ali fazer o mestrado (já que seria totalmente gratuito). Peguei o edital de seleção e comecei a me preparar. Fui atrás dos livros indicados para a prova discursiva, além de buscar um tema compatível com a linha de pesquisa para elaboração do meu projeto. Muita pesquisa até achar um tema adequado. Tentava conciliar o estudo para concurso, preparação para a prova discursiva do mestrado e elaboração do projeto de pesquisa. A prova se realizou em fevereiro de 2013, consegui minha aprovação tanto na discursiva quanto na defesa do projeto (oral) – Eduardo deve conhecer os professores que fizeram parte da minha banca (Dr. Vladimir, Dr. Gelson e Dr. Marcos Botelho).
As aulas iniciaram em maio de 2013, pensei que seria tranquilo, daria para conciliar o estudo para concurso. Engano meu. Um ano de aula, toda sexta à noite e sábado dia todo. Todo semana tínhamos seminário para apresentação. Os professores passavam os livros para leitura, muito puxado. Para cada matéria era obrigatória a entrega de uma artigo. Várias viagens para congresso para apresentar os artigos (CONPEDI). O Eduardo deve lembrar, os mestrandos tinham que ministrar aulas para os alunos da graduação, requisito para preenchimentos dos créditos. 
Fui bolsista na CAPES no Mestrado, exigência foi bem maior.
Durante o período de aula já estava traçando um cronograma para escrever a minha dissertação.
Foi um ano de intensa atividade, me afastei dos estudos para concurso.
Certamente fiz o caminho inverso, vários amigos da turma já eram juízes e membros MPF/MP. 
Após o término das aulas (abriu 2014), iniciei um caminho mais árduo, escrever a dissertação. Foi mais um ano de intensa pesquisa e escrita. Mas enfim, em maio de 2015 defendi a minha dissertação (escrevi sobre liberdades constitucionais, com ênfase na liberdade religiosa). 
Certamente atrasei nos estudos para concurso, mas foi muito bom o mestrado. Grande experiência. Não me arrependo. Mas aí depende de cada colega em fazer suas escolhas.
Com o mestrado consegui aulas em Faculdade, o que acabou me ajudando financeiramente a voltar a estudar. 
Aponto como ponto negativo a impossibilidade de conciliar os estudos para concurso. Impossível. Tem que escolher, ou não se aproveita nenhum dos objetivos. 
Após o término do mestrado reiniciei os estudos para concurso, agora não paro até passar.
Junio Barreto

Agora o relato do Adalberto
Meu nome é Adalberto e sou graduado e mestre em Direito pela UFPA e doutorando em direito na USP. Sou amigo da Nathália Mariel desde os tempos da graduação, somos do mesmo círculo de amigos.
Eu acredito que a sua análise é bastante verdadeira. Não sei falar a respeito de especializações, porque não foram meu foco. Pelo que é do meu conhecimento, o ritmo de aulas e estudo é menor e até seria possível conciliar, mas qual seria o ganho obtido pelo candidato com o custo de horas e dinheiro de uma especialização? Consideremos que a maioria das especializações só são ofertadas por faculdades particulares.
Eu posso tratar melhor da área estritamente acadêmica, da pós-graduação em sentido estrito, mestrado/doutorado. E vamos colocar de maneira bastante direta? Mestrado e doutorado tem por objetivo formar professores/pesquisadores. Ponto final. Você tem paixão em estudar, ler, escrever e lecionar? Não queria sair nunca da faculdade? O caminho é o mestrado/doutorado. Se você quer exercer outra profissão jurídica que não ser professor, em se tratando de concurso público, não invista neste tipo de formação.
Perceba que estou falando de concurso público. Muitos advogados privados cursam especialização, mestrado e doutorado como forma de verticalizar seu conhecimento na área de atuação.
Quanto à rotina do meu primeiro ano de mestrado, eu tive que cursar 8 disciplinas, 4 no primeiro semestre e 4 segundo. Cada disciplina dessa exigia 4 horas de aula semanais e uma carga de leitura de aproximadamente 60-80 páginas/semana. Isso quer dizer que eu lia por semana 240-300 páginas/semana de textos essencialmente filosóficos, de leitura difícil e sendo necessário apresentar seminários, hand outs etc. Para se ter uma ideia do tipo de leitura, basta procurar na internet e ler o começo do livro Verdade e Método de Gadamer. Claro que havia algumas exceções de professores exigirem a leitura prévia semanal de livros inteiros a serem discutidos na próxima semana, mas isso eram exceções.

o segundo ano, não cursamos disciplinas e tudo parece ser mais calmo, mas não é. Temos que qualificar o projeto de dissertação, isto é, o projeto tem que ser aprovado por uma comissão de três professores em meados de março-abril do ano. E em dezembro-março (do ano seguinte) já temos que entregar a dissertação de 150-200 páginas mais ou menos. Então a pesquisa exigiu de mim dedicação exclusiva financiada por bolsa governamental e o meu regime de estudo/pesquisa era de trabalho normal (8 horas diárias de leitura e escrita).
O doutorado é mais tranquilo, porque temos 3-4 anos para fazer a tese e porque já temos a experiência do mestrado.
A questão que queria esclarecer, Eduardo, é que não dá pra servir dois reis ao mesmo tempo e isso não é só em relação a concurso público, estou falando da profissão mesmo. Cada vez mais as universidades públicas exigem dedicação exclusiva dos seus professores. Professor universitário no Brasil tem que preparar as aulas, estudar continuamente para testar suas hipóteses, produzir conhecimento, formar grupos de pesquisa, extensão e leitura entre os graduandos. Enfim, tem que vivenciar a profissão, senão você vai ser mal visto pelos seus colegas, pelos alunos e por servidores (lembro que a partir do momento em que você se torna professor, você vira uma figura pública. Só ano passado tive mais de 300 alunos diferentes).
Da mesma forma, quem se torna Procurador da República, Advogado da União ou qualquer outra profissão jurídica acaba tendo que vivenciar a profissão ao máximo. Isto é exigido pela instituição. Acaba que muitos daqueles que falam que vão passar no concurso público para depois fazer mestrado/doutorado, não o fazem. Outros ainda conseguem fazer o mestrado a duras penas e são tão assustados pela dificuldade de conciliar o trabalho jurídico e a pesquisa acadêmica que não voltam pro doutorado. Alguns poucos conseguem chegar ao doutorado, mas não se tornam professores. Uma taxa ínfima consegue ter uma profissão jurídica, ser doutor e professor. Mas neste caso, infelizmente, muitas vezes alguma das profissões acaba ficando prejudicada. Se ambas as profissões não são prejudicadas, então é porque sua família está prejudicada.

É preciso tomar decisões. É melhor que esta decisão seja tomada o quanto antes. O bom é que temos a possibilidade de tomar decisões quanto às nossas vidas. Por outro lado, 70% da população brasileira não tem a possibilidade de escolher o destino da sua própria vida por falta de condições materiais adequadas. Tomar essa decisão é um privilégio. Somos privilegiados, usufruímos de uma desigualdade imerecida. Daí que decidir pelo serviço público é uma forma de retornar mesmo que parcialmente e de forma mínima tudo aquilo que recebemos sem merecer.
Espero ter ajudado, meu amigo. Continue com o blog porque a sua ajuda é preciosa para milhares de brasileiros por aí afora em busca de uma vida melhor.
Beijo, Mariel!
Adalberto


Bom, era isso. 

Reitero os agradecimentos ao Adalberto e ao Julio. O espaço está sempre aberto a vocês. 

Eduardo, em 10/02/2016



9 comentários:

  1. Muito obrigado aos mestres !!! Estou na Universidade ainda e não deixo de acompanhar o blog, opiniões como essa são valiosas. Parabéns ao Edu e toda equipe.

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  2. Ajudou muito a experiência dos colegas! Muito obrigada!

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  3. Amei o poste. Obrigada pelos esclarecimentos. Estou começando hoje minha luta pela aprovação no concurso do MPF.

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  4. Muito obrigada pelos depoimentos. Vieram em boa hora e me ajudaram a escolher qual será minha prioridade nesse momento. Como bem escreveu o Adalberto: não dá pra servir dois reis ao mesmo tempo.

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  5. Muito obrigada pelos depoimentos, me ajudou bastante!!

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  6. Quero agradecer a imensa ajuda que estes depoimentos me deram. Estou terminando uma especialização e já mirando no mestrado. Obrigada!

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  7. Um Banho (sensato e necessário) de água fria!
    Resolvi ler este post, pois tinha acabado de sentir o maior peso na consciência em continuar estudando para concursos, mesmo tendo um prazo apertado de entrega da minha dissertação do mestrado.
    Me chamou este post, pois os depoimentos muito se assemelham com minha história de vida: Depois de alguns anos atuando como advogado criminalista e professor em faculdades particulares (nestes 9 anos já lecionei em quase todas as faculdades do meu Estado), decidi me preparar (tardiamente, eu sei) para o mestrado em direito da Universidade Federal de Alagoas.
    Como já estava ligado à área docente, resolvi também me inscrever e estudar para o mestrado em Educação da mesma UFAL. Depois de empreender uma rotina de estudos alucinante, tanto para escrita dos projetos, quanto para as provas discursivas e orais, acabei, com a graça de Deus, logrando êxito nos 2 certames e, ainda, nas primeiras colocações, o que me credenciou a ter direito a Bolsa CAPES. Começavam aí as chamadas "escolhas trágicas".
    Sempre tive uma meta (a qual, pela minha não possibilidade de me dedicar integralmente a ela, estava acabando por se tornar apenas um "sonho"): ser PROMOTOR DE JUSTIÇA.
    Só que com essa jornada de estudos intensificados para a aprovação nos mestrados (embora, ao longo dos anos anteriores, nunca tenha perdido o prazer de estudar: depois de graduado em direito, fiz 2 especializações, em ciências criminais e em direito constitucional, e outra graduação, em Ciências Sociais na mesma UFAL) ganhei um ânimo e estímulo muito fortes para que retomar a busca pela minha meta de ingressar no MP.
    Tanto o é que fiz uma radical atitude: após optar por cursar o Mestrado em Direito Público (pesquisando a constitucionalidade e implicações político criminais da privatização dos presídios) com Bolsa da CAPES, pedi licença sem vencimentos das faculdades que leciono e parei de aceitar novos clientes na advocacia, apenas diligenciando os processos antigos.
    Esse sacrifício de diminuição significativa da minha renda, confesso, que teve como principal objetivo me fazer ganhar horas de estudos para que iniciasse minha preparação para o meu concurso público. E assim eu fiz: comprei curso preparatório online, contratei um serviço de coaching, o qual fez um planejamento, que incluía as aulas do mestrado e a escrita da dissertação (de forma bem tímida) na minha rotina.
    Como disseram os excelentes depoimentos dos colegas: Ledo engano, o mestrado nos suga de uma maneira que dividir com outras responsabilidades acaba gerando um estresse excessivo e pode causar maiores prejuízos a ambos os objetivos. Nunca consegui cumprir o cronograma do coach, que tinha uma fórmula mágica de me dedicar 4 horas ao trabalho, 4 horas ao concurso e 4 horas ao mestrado todos os dias.
    E olhe que também tenho objetivo de cursar o Doutorado em Direito Penal, Medicina legal e Criminologia na USP, e também foi outro banho de agua fria ler que também será muito complicado seguir servindo a dois reis (concurso x doutorado), mesmo nessa fase já mais “tranquila” em relação ao mestrado.
    Enfim, acho que escrevi demais, mas, como me identifiquei muito com os depoimentos, achei interessante compartilhar minha experiência no tocante ao tema proposto (raríssimo achar sites ou livros que falem sobre esse dilema, o que torna esse blog ainda mais sensível aos problemas dos concurseiros que tem histórias de vida não retilíneas e, sobretudo, não iguais entre si), para obter a opinião de Eduardo, Adalberto e Julio sobre a pergunta inversa:
    É RECOMENDÁVEL PARA QUEM JÁ ESTÁ PRÓXIMO DA ENTREGA DA DISSERTAÇÃO PARA QUALIFICAÇÃO (17.11.2017 é a minha) INICIAR UMA PREPARAÇÃO INTENSA PARA CONCURSOS PÚBLICOS (já queria fazer a prova da Defensoria Pública de Alagoas, prova acontece em 18 e 19.11 – estou inscrito, mas não paguei o boleto que vence dia 05/10/17) OU ISSO SERIA ILÓGICO, SENDO MELHOR ESPERAR TERMINAR O MESTRADO PARA FAZER ESSA PREPARAÇÃO?

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    Respostas
    1. Meu amigo, quanto antes você começar a se preparar melhor. Se já está em fase final, não vejo porque não possa iniciar desde logo a preparação pra concursos, nunca se esquecendo que a caminhada é longa e o primeiro resultado pode não ser como você espera. Concurso são anos de estudos e dedicação.

      Abraços.

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